Nos rios impassíveis

1 O dom do verdadeiro artista é recuperar a inocência do mundo. O seu olhar devolve-nos a harmonia perdida. Bazarof, figura de Ivan Turgueniev – um dos escritores geniais que nos deu a Rússia -, confessa, amargurado: “Vês o olmeiro? Tomava-o por talismã. Junto dele, nunca me aborrecia. Então eu era criança. Agora, que cresci, o talismã perdeu o seu poder”. Queixava-se da usura da alma. É o drama deste tempo: o fútil turbilhão das coisas obriga a virar costas à vida viva. Gastamos os dias presos de uma câmara mortuária – de morte antecipada. E basta que, uma vez mais, nos entregue o demiurgo aquilo que redescobriu para que vibremos. O Barão, de Branquinho da Fonseca, explicou: “o mundo é do tamanho dos olhos de cada um!” – mas a medíocre circunstância tapou-nos os olhos.

2 Procuro aproximar-me e compreender André Almeida e Sousa cuja pintura está exposta na Galeria Alecrim 50, em Lisboa, até 10 de Janeiro de 2009. Trata-se de um admirável artista jovem. O seu trabalho foi esse: fixar o imponderável. Entrega-nos o resultado de uma purificação. Dir-se-ia ter visto as coisas pela primeira vez e, quando vistas pela primeira vez, elas impõem a candura. E despertam a nostalgia do absoluto, pisada e humilhada pelo quotidiano. Do encontro de Almeida e Sousa com o maravilhoso intangível e sempre presente resultaram 10 obras fascinantes. Um novo pintor? Expõe desde 2001 e no entanto é novo: com gesto simples (o mais difícil: raros o atingem), oferece a novidade da própria mundividência. Tal qual não há duas pessoas iguais, não há duas mundividências iguais – a questão é conseguir expressá-las. No caso, o artista conseguiu.

Manuel Poppe

21 Dezembro 2008 | Jornal de noticias